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Atenciosamente,
C.A.B.

Futebol e vinho tem mais em comum que o fato de ambos tirarem boa parte de seus resultados do campo. Um dentro das quatro linhas. Outro na lida e no cultivo da terra. O bom vinho se faz com boa uva, portanto com o trabalho de campo.
A essa altura, espero, ninguém mais seria ingênuo o suficiente para pensar que o vinho que bebemos é fruto unicamente do desejo do produtor ou da sua boa vontade para com os consumidores. O vinho que rotineiramente é derramado em nossas taças, muito embora seja fruto do suor e mil cavocações em solos pedregosos, tem muito a ver com decisões tomadas longe dos vinhedos e das vinícolas. Que o digam nossas garrafas made in Brazil, recentemente ameaçadas pelos selos fiscais.
Para quem gosta de dados históricos, basta uma breve pesquisa sobre as origens das Denominações de Origem. As decisões que pesaram sobre as demarcações, castas autorizadas e formas de vinificação não foram feitas visando as qualidades gustativas do vinho, ao menos não no sentido estrito. Como sugestão para os interessados no tema indico o livro Wine Politics, de Tyler Colman, professor da New York University.
Já os que buscam evidências mais próximas e recentes, a lista de 2009 dos cinquenta nomes mais poderosos da indútria do vinho, publicada anualmente pela revista britânica Decanter, pode ser uma leitura igualmente interessante. A chamada “Power List” desse ano, publicada na edição de julho, revela que entre as cinquenta personalidades que mais influenciam no vinho que bebemos, somente onze são hands on, ou seja, atuam diretamente na elaboração dos vinhos. Entre os dez primeiros figuram políticos, críticos de vinho (óbvio que Robert Parker é um deles, ocupando o posto número 2) e executivos de grandes conglomerados ligados direta ou indiretamente aos vinhos. Aliás, no primeiro posto está entronado Richard Sands, Chairman da Constellation Brands, maior grupo produtor de vinhos do mundo. Em sétimo lugar figura Jean-Christophe Deslarzes, CEO da Alcan, a empresa por traz das screwcaps, que atualmente abocanham 15% do mercado que era exclusivo das rolhas (de cortiça ou sintéticas). A indicação de Deslarzes na lista é seguida de um comentário sobre a decisão de algumas vinícolas a respeito de mudanças na elaboração dos vinhos cujas garrafas serão fechadas com as screwcaps. Em um honroso nono lugar o presidente da França, Nicolas Sarkozy, seguido de perto por Pierre Pringuet, CEO da Pernod Ricard, na décima posição.
O primeiro hands on da relação de nomes surge apenas na 17a. posição. Resumo da ópera. Uma boa dezena de pessoas opinaram sobre o vinho que você irá beber antes que as decisões de um vinhateiro pesassem sobre o que será colocado nas prateleiras. Surpreso? Lembre-se que até técnico da seleção que ocupa o primeiro lugar no ranking da Fifa já engoliu jogador não escalado por ele!

Meu primeiro post nesse blog, e vem na forma de pesar. A notícia do falecimento de Saul Galvão no dia nove me mobilizou. Não o conhecia de fato. Não tinha convívio estreito com ele. Acho que não trocamos mais que meia duzia de frases durante os poucos anos que venho participando de degustações. Sua presença sempre foi facilmente notada. Bigode avantajado, óculos redondos em torno de um par de olhos atentos e sorriso fácil. Sua figura sempre chamou minha atenção. Mas, além da descrição física, o que sempre o marcou e me surpreendeu era a forma cordial e polida com que sempre se portava. A cordialidade e a polidez (diria Comte-Sponville), são qualidades imprescindíceis para que as demais virtudes possam vir à tona e transbordem. Mesmo que as demais virtudes não existam, a cordialidade deve ser cultivada. Assim, caso elas brotem, poderão crescer e dar frutos. Quando as virtudes já existem, dificilmente serão percebidas sem a cordialidade e a polidez. Nunca fui de participação muito notória nas degustações. Entro, degusto, quando há oportunidade converso com produtores, faço algumas anotações, troco idéias com uns poucos mais próximos que não se opõem à minha ignorância e saio. Mas mesmo sendo eu um frequentador menos assíduo do mundo do vinho, Saul (me permitam tratar com certa intimidade) sempre que cruzava comigo trocava um olhar e me dirigia um cumprimento. Nunca deixou de fazê-lo, mesmo quando rodeado de amigos. Eram pequenos gestos apaziguadores para quem se sentia peixe fora d’água. Ainda que me faltem a cordialidade e a polidez, e sei que não são poucas as vezes que delas careço, não deixo de admirá-las em outras pessoas. Reconhecê-las nos outros é no mínimo um bom começo. As reconheci em Saul. Espontâneas, sem pose ou eloquência. Pena eu nunca ter desfrutado das demais virtudes que certamente ele possuia. Sua cordialidade fará falta nas salas de degustação.